Cotidiano

Mulher de deputado que apalpou Isa Penna diz que quem sofre assédio não ‘escancara’ e vira estrela

A mulher do deputado estadual Fernando Cury (Cidadania), Renata Meneguella Cury, saiu em defesa do marido após a Assembleia Legislativa de São Paulo ter ampliado a pena de afastamento dele de três para seis meses.

A punição foi decidida pela Casa depois que ele apalpou a deputada Isa Penna (PSOL) em plenário, em dezembro passado.

Em postagem no Facebook na sexta (2), Renata Cury disse que “enquanto de um lado a atriz ganhava holofotes com olhares serenos e se vitimizando de tamanho sofrimento que passava, aqui tinha força e fé que segurava um lar que estava sendo apedrejado”.

Ela afirmou ainda que quem sofre assédio não escancara e vira estrela, dizendo que diversas vezes perdoou homens que erraram com ela e se desculparam.

“Quem sofre assédio fica indignada, não escancara [a situação] e vira estrela.”

A postagem da esposa não está mais disponível em seu perfil -após ser procurada pelo pela reportagem do UOL, Renata bloqueou o acesso à sua publicação no Facebook.

Em dezembro, a deputada Isa Penna foi apalpada por Cury no plenário e registrou um boletim de ocorrência contra ele por assédio sexual, além de o denunciar ao Conselho de Ética da Casa por quebra de decoro.

Nesta quinta-feira (1º), durante a sessão, Isa afirmou que a votação foi uma vitória do feminismo. “A gente comemorar essa pequena vitória de ter, pela primeira vez na história do Brasil, um parlamentar sendo suspendido por assédio, isso ninguém vai me tirar”, disse.

Com a decisão, assume o cargo o suplente de Cury, padre Afonso Lobato (PV), que poderá exonerar os servidores do gabinete do colega. Cury ficará sem salário durante o período e seu gabinete, sem verba.

Isa Penna e parte dos deputados defendiam a cassação do mandato de Cury, mas a pena máxima prevista pelo regimento não alcançaria a maioria absoluta de 48 votos (entre 94 deputados) para ser aprovada. Segundo a deputada, 44 parlamentares apoiariam a cassação.

“Fico feliz, não posso deixar de sentir felicidade. Qualquer deputado e qualquer homem vai pensar duas vezes agora.

A questão não é a quantidade de meses, mas a mensagem aos assediadores de que não é aceitável. É uma derrota para o machismo”, disse Isa ao jornal Folha de S.Paulo ao final da votação.

A deputada afirmou ainda que chegou a temer que o caso fosse arquivado, mas que a mobilização da sociedade foi grande. Cansada, mas aliviada, Isa disse também que quase não dormiu na última noite, devido a uma crise de tendinite.

Em sua página no Facebook, Renata Cury disse ser “Fernando até o fim”, que tem orgulho do marido e que está “aliviada com a suspensão e muito grata a Deus por tirá-lo desse meio por 180 dias” e deixá-lo em casa com a família.

“Aos que queriam me ouvir e que esperavam condenação e julgamento, infelizmente pra vcs aqui tem Mulher de verdade!” Em seu post, a profissional do mercado financeiro criticou mulheres que denunciam assédio e disse não mais se considerar feminista.

“As fêmeas quando convém se ‘cegam’ e se unem para levantar bandeiras”, disse. “Trabalhei 15 anos numa instituição e vi tanto, aliás, acho que sofri [assédio], mas, me lembrei de situações que resolvi tão simplesmente. Quem sofre assédio fica indignada, não escancara [a situação] e vira estrela. Lembrei também quantas vezes na vida um homem errou e se desculpou comigo e quantas vezes respondi ‘o que é isso, não foi nada!’.”

Renata Cury diz que o feminismo que “quando convém” vira vítima é vergonhoso, também fez insinuações semelhantes a que deputados colegas de seu marido fizeram sobre Isa Penna, insinuando que a parlamentar teria um comportamento inadequado por, entre outras coisas, dançar funk.

“Feminismo pra mim é saber se posicionar e resolver. Aliás, ter postura sempre! Isso pra mim é ser mulher. Esse ‘feminismo’ que quando convém vira vítima é vergonhoso. Quando acha que deve ‘rebolar até o chão’…Podre! Feminista que não aceita desculpa, mete a faca na garganta e grita por sangue! Isso pra mim é ridículo!”

Na sessão que ampliou a punição, o advogado de Cury, Roberto Delmanto, afirmou que o deputado “não é assediador e não existe crime”. A defesa falou em linchamento e disse que as sessões “já estão significando uma punição indelével” a Cury.

A ampliação da pena no plenário foi costurada em reunião na manhã de quinta, horas antes da sessão, com líderes de bancadas e membros do Conselho de Ética. Tratou-se, na verdade, de uma brecha acordada pelos deputados para driblar a pena engessada de 119 dias.

O encontro foi convocado pelo presidente da Casa, Carlão Pignatari (PSDB), após pressão dos deputados que queriam punição mais dura –grupo que incluiu além de membros de PT, PSOL, PCdoB, Novo e Rede, nomes de peso como Janaina Paschoal (PSL), Barros Munhoz (PSB) e Campos Machado (Avante) e ainda parlamentares mulheres de partidos de direita.

Isa contava com a pressão popular pela cassação de Cury. No último domingo (28), um grupo de 64 artistas e personalidades publicou uma carta a Carlão pedindo a cassação do mandato do deputado.

Há ainda a campanha Por Uma Punição Exemplar (porumapunicaoexemplar.com), que busca pressionar os parlamentares por uma pena mais dura por meio de disparo de emails. Segundo a assessoria de Isa, mais de um milhão de mensagens foram disparadas.

Além da ação no Conselho de Ética, Cury é investigado pelo Ministério Público de São Paulo, após Isa acusá-lo de importunação sexual

Bnews

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