Esportes

Homem vence depressão e conduz projeto semiprofissional de futebol em Brejões

No pequeno distrito de Serrana, pertencente ao município de Brejões, um projeto nasceu da depressão de homem e, cinco meses depois, com 180 atletas, tem planos de entrar no futebol profissional. Trata-se da Associação Atlética Primeiro Passo, cujo presidente é Marivaldo Lessa, que viu na AAPP uma válvula de escape para uma dor que o colocava no “pré-sal”, como ele mesmo relata.

Se recuperando da separação da esposa, Marivaldo foi convidado por Ricardo Cerqueira para começar um projeto que, à época, não se tinha noção do tamanho que tomaria. Foi a união do empresário que não conseguiu se tornar jogador de futsal, com um atleta de futebol que teve a carreira prematuramente interrompida pelas lesões. “Eu vinha de uma separação.

Eu estava no ‘pré-sal’, não no fundo do poço. Eu entrei no estádio meio depressivo. Ele me procurou e me fez o convite. Ele não queria dar dinheiro, mas oportunidade. Com isso, nós começamos há cinco meses com 40 atletas de seis a 12 anos. Aí cresceu de uma forma inesperada”, conta, em entrevista ao Bahia Notícias.

A dor, aos poucos, foi cessando, com a ajuda de tratamento e do envolvimento com o projeto, e Marivaldo hoje comanda o Primeiro Passo. “Nosso projeto não se resume ao futebol. Fazemos um acompanhamento escolar, psicológico. Temos 180 atletas de seis a 21 anos.

O intuito mesmo não é só o social, mas dar oportunidades para alguns se profissionalizarem e terem uma vida melhor, para ajudarem não só a cidade, como o desenvolvimento familiar”, explica. “99,9% quem está me recuperando é o esporte”, emenda.

A vida de Marivaldo no futebol começou ainda jovem. E, em 1995, aos 17 anos, ele foi levado para fazer testes nas categorias de base no Bahia. Aprovado, ele não teve o apoio psicológico ideal para começar e, então, voltou para casa. Lá, num projeto de futsal de Brejões, ele acabou lesionando a coluna. Nunca mais conseguiu voltar a jogar. No entanto, acabou se tornando colaborador da equipe. Portanto, crê que tem a experiência necessária para dar o suporte necessário aos atletas do projeto.

E, nessa caminhada, dificuldades e desacertos aconteceram. Marivaldo conta que, na luta para ampliar seu projeto social, já perdeu alunos para a violência. Um deles foi Washington Silva do Carmo. Considerado uma das joias do Primeiro Passo, ele foi assassinado, o que marcou a vida do presidente e “faz tudo” do clube. “Era um atleta que jogou em 16 clubes profissionais, disputou Série D. Foi aprovado aos 13 anos no Cruzeiro, passou na dupla Ba-Vi, Feirense, Fluminense de Feira… Na semana de acertar com o Santos, ele desistiu porque já estava no mundão. Tinha 20 anos. Eu meio que adotei ele aos 11 anos”, relata.

Em meio à tragédia, Marivaldo ainda se recuperava da depressão. E, nessa batalha, ele contou com a ajuda de Ricardo Cerqueira, quem considera como um “anjo”. “Era uma calamidade. Eu tinha dificuldade até para me alimentar. Eu estava fazendo tratamento junto ao CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial). O que sei fazer é trabalhar nesse segmento esportivo. Deus colocou o Ricardo na minha vida. Eu já me recuperei na parte psicológica e financeira”, desabafa.

E, junto com a melhora de Marivaldo, o projeto se desenvolve. Hoje, a diretoria já está próxima de um acerto com o Lusaca para utilizar a marca do clube na disputa do estadual do próximo ano nas categorias Infantil e Juvenil, o que seria uma espécie de tercerização. “Conversamos com o Lusaca, temos sondagem do Redenção e com o Ypiranga. Sentaremos essa semana para definir isso. Mas a conversa está muito avançada com o Lusaca. O forte deles é o feminino, mas disputaram torneios de base no masculino”, revela.

Além desse projeto, a AAPP conversa com a Federação Bahiana de Futebol (FBF) para representar Brejões no Intermunicipal do próximo ano – a cidade nunca teve uma seleção no torneio.

Marivaldo atribui o sucesso do time à seriedade com que o projeto é levado. Agora, o intuito é tornar o Primeiro Passo autossustentável. “As coisas têm acontecido de forma muito rápida. Quando você faz as coisas com transparência e lealdade, Deus abre portas. Nossos jovens vêm sendo descobertos e estão tendo oportunidades”, conclui.

Matheus Caldas/BN

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