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Geddel compara Rui a pedreiro: 'Fica viajando para ver se há vazamento no teto de escola'

GEDDEL X RUILíder do PMDB na Bahia e figura influente no partido em âmbito nacional, Geddel Vieira Lima falou sobre a articulação do partido com o Planalto e no Congresso, comentou a Operação Lava Jato e seus reflexos em grandes empresários, como no caso do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, preso na sexta-feira (19).

Crítico ferrenho do governo petista, o político vê Rui Costa, à frente do Executivo baiano há seis meses, como um pedreiro, por se ater a possíveis vazamentos e falta de ladrilhos de escolas do interior. Geddel se diz à procura de uma aliança capaz de retirar os petistas do poder e já conversa com o prefeito de Salvador, ACM Neto, para formar essa coalizão a partir das eleições de 2016.

Apesar das negociações, o empresário não dá certeza sobre a filiação do democrata ao PMDB, mas diz ter assegurado ao prefeito: “Se você vier, você é o nosso candidato a prefeito em 2016, contando com meu entusiasmo, meu apoio e meu engajamento total e absoluto”.

Confira a entrevista completa: O senhor é um dos articuladores dentro do PMDB e hoje os peemedebistas vivem uma situação estranha: enquanto o vice-presidente da República é do PMDB e é o principal articulador do Planalto no Congresso Nacional, o comportamento de alguns partidários no legislativo é como se fosse de oposição. Efetivamente, o PMDB é governo ou é oposição?

Estranha, mas não é nova. Essa é uma tradição do PMDB. O PMDB tem divisão interna muito claramente definidas que surgiram num momento em que o partido equivocadamente abriu mão de lançar um projeto próprio de poder a nível nacional. A partir daí termina prevalecendo as posições regionais, portanto, o PMDB eu diria hoje que, ainda que tenha o vice-presidente da República, é um partido dividido. E posso te assegurar que a minha posição, que há tempos atrás era francamente minoritária – no sentido de que nós devemos nos afastar do PT, devemos romper com o governo federal, devemos mostrar ao país que não estamos de acordo com a forma como ele vem conduzindo o país -, é hoje uma posição que vai se aproximando da vontade majoritária do partido.

O PMDB, apesar de ter Michel Temer na articulação, ainda não sossegou o ânimo, ainda não arrefeceu?

Até porque essa questão da articulação é muito mal conduzida. A articulação no Brasil e no governo da Dilma virou um balcão de negócios. Queria que o PMDB pudesse participar de qualquer outra articulação que não essa. A articulação de saber o que vem depois do ajuste fiscal, qual é a política industrial, o que se propõe para o turismo nacional verdadeiramente, qual o projeto de desenvolvimento do país, o que vamos como passo pra retomar a política que volte a gerar emprego e devolver esperança ao país? Não se fala nisso, não se trata mais disso. O país e o governo do PT envolvidos num escândalo de corrupção sem precedentes, uma política econômica que naufraga, um país sem esperança e não há articulação política pra conversar com a sociedade a respeito disso. É saber quem fica com a diretoria tal, e esse modelo está vencido. As pessoas precisam entender que há de se mudar, mesmo quem em determinado momento compactuou com esse tipo de processo só pode diluir se entender que a sociedade quer mudanças. A sociedade não quer a repetição desses erros que levaram ao mensalão, ao petrolão.

A relação PMDB-Palácio do Planalto ficou ainda mais desgastada com a eleição de Eduardo Cunha – já quando líder do PMDB tinha uma posição muito similar à do senhor, contrária à aproximação PT-PMDB. Na presidência da Câmara, Cunha se comporta francamente como um opositor, apesar de não o ser, e como uma questão de independência da Casa. Mas tem havido uma série de críticas à postura do Eduardo Cunha em relação ao conservadorismo. Como o senhor, integrante da cúpula do PMDB e figura influente dentro do partido, recebe essas críticas do excesso de conservadorismo e da condução que Eduardo Cunha tem dado à Câmara dos Deputados?

A gente tem que, pra responder essa questão, começar com uma definição. Que parlamento nós queremos? Critica-se de qualquer jeito, ou seja, se você tem um parlamento que é subserviente ao governo federal, que só trabalha até quinta-feira, a mídia e os setores participativos da sociedade descem a borduna no parlamento dizendo que é omisso, que é um puxadinho do governo, que está subserviente ao Executivo. Se tem um presidente da Câmara que faz com que o parlamento comece a se manifestar, desengavetando propostas que tramitavam há muito tempo na Casa e coloca no plenário para que a maioria se manifeste, é um parlamento rebelde, que faz oposição. Acho que a gente tem que dividir a atuação do deputado Eduardo Cunha em duas. Com uma eu concordo inteiramente; com a outra posição eu tenho divergências. Ou seja, concordo que é necessário o presidente da Câmara dos Deputados e do Senado da República tratar o poder como autônomo, independente, ainda que harmônico, e que coloque em apreciação do plenário todos os temas. E o plenário, soberanamente, decide se é a favor ou contra, como representante do povo brasileiro. Isso é uma coisa que eu aplaudo. A outra, que eu tenho divergências, são as posições ideológicas conservadoras do deputado Eduardo Cunha, em relação a uma série de questões da sociedade contemporânea.

Quais seriam essas posições?

Em relação à questão do casamento homoafetivo, em relação a uma série de questões neste campo, que tenho uma visão um pouco diferente da dele.

O senhor acredita que essa postura ideológica de Eduardo Cunha prejudica a imagem do partido perante a sociedade?

Acho que não. Acho que as pessoas sabem que essa é uma postura muito dele, é uma visão muito de Eduardo Cunha, não uma visão pactuada com o PMDB. Não creio que haja essa confusão. As posições do deputado Eduardo Cunha são muito marcadamente do deputado, que é evangélico, que tem posições claramente definidas no campo de atuação pessoal. Mas não são posições que sejam ou estejam sendo absorvidas ou abraçadas pelo partido.

Com relação à Bahia. São seis meses de governo Rui Costa e o senhor marchou com a oposição em 2014. Como o senhor avalia esses primeiros momentos do governador?

O terceiro mandato de Jaques Wagner. Avalio com muito pessimismo. Tenho dito que, primeiro pra evitar a réplica raivosa, todo respeito pessoal ao Rui Costa, mas vejo que ele não tem tamanho e dimensão para o cargo que ocupa. O Jaques Wagner tem aquilo pelo menos que se diz “fisic terrole” de governador. O Rui Costa nem isso. É alguém que é governador da Bahia e nesses seis meses se porta – com todo o respeito à função de pedreiro – muito mais como um pedreiro do que como um governador. É alguém que fica viajando para o interior pra ver se há vazamento no teto de escola, pra ver se está faltando ladrilho. Não é isso que a Bahia quer. Não há um projeto de desenvolvimento claro, não há o encaminhamento de uma sinalização de uma matriz econômica nova para a Bahia e nova linha de desenvolvimento. E velhos problemas se aprofundam, ainda que eles tenham prometido fazer diferente. A segurança pública está aí. A história de estourar caixas eletrônicos está se multiplicando, a insegurança toma conta e não há uma novidade nesse processo. A saúde persiste com os mesmos problemas, fora a boa vontade do secretário Fábio Vilas-Boas; uma regulação que é uma loteria, o destino escolhe quem vai viver e quem é que vai morrer; hospitais públicos faltando materiais básicos. E o governador querendo saber se está fazendo visitas surpresas pra criar factóide. Velhas promessas continuam sem sair do papel, o estelionato é claro e é importante, inclusive, que a mídia cobre. Cadê a ponte Salvador – Ilha de Itaparica que prometeram como algo efetivo? Cadê a JAC Motors, que ganharam a eleição dizendo que viria a JAC Motors? Lembro que o PT – é uma coisa até engraçada isso – acho que eles não sabiam como montava árvore, porque eles enterraram um carro, disse que era uma cápsula do tempo. Talvez eles tenham pensado que fazer fábrica era assim: me entrega um carro, aí ia chover e ia nascer uma árvore e dar um porção de carrinho. Isso é uma demonstração de incompetência. E a Ferrovia Oeste-Leste? Agora imagina a seguinte situação: vamos imaginar que não tivessem sido tão incompetentes e tivessem concluído a Ferrovia Oeste-Leste. Ia levar os produtos do Oeste pra onde, pra que porto? Cadê o Porto Sul? Cadê a duplicação da rodovia Ilhéus-Itabuna que prometeram? O presidente veio aqui, assinou a ordem de serviço. Cadê a barragem do Rio Colônia? Cadê a duplicação do aeroporto de Ilhéus? Cadê o aeroporto de Vitória da Conquista? Cadê o oceanário que Jaques Wagner prometeu para onde era o Clube Português? Essas promessas não precisam muito esforço, basta dar uma clicada no Google e estão todas lá. Isso é um estelionato eleitoral de quem venceu eleições cavalgando exclusivamente nos programas sociais do governo federal e no carisma do ex-presidente Lula.

Quais são os planos do PMDB para 2016?

Estamos fazendo esforço muito grande para atrair novas lideranças para o partido e estamos tendo sucesso. Só pra confirmar o que te digo, nesta sexta-feira (19), tive o privilégio de receber a filiação de um grupo importantíssimo de Paulo Afonso, uma das grandes cidades da Bahia, que filiou-se ao partido do ex-prefeito Paulo de Deus, de uma força política imensa. Temos feito encontros regionais em ano que não é de eleição mostrando a nossa intenção de estar perto das bases – já estivemos em Barreiras, em Valença e em Itabuna – e estamos com outros programados. Vamos fazer nossa convenção regional no dia 19 próximo e estimulando a vinda de novas lideranças, da juventude, das mulheres, do PMDB Afro, para que a gente possa participar da eleição do ano que vem com força para nos credenciarmos como alternativa real e chegarmos fortes em 2018.

 Entre as lideranças que o PMDB pode captar está incluído o prefeito ACM Neto?

O prefeito ACM Neto não é uma liderança para captar, não é uma liderança para se seduzir. Tenho tido com ACM Neto pessoalmente e politicamente uma relação muito franca e clara, com projetos definidos onde cada um põe na mesa quais são seus planos para o futuro. Vamos tomar essa decisão conjuntamente, dentro da ideia do que é melhor para o nosso projeto de vencermos as eleições de 2016 e chegarmos muito fortes a 2018 para desalojar esse grupo político que, na minha avaliação e na dele, tem feito mal à Bahia e não tem aproveitado as oportunidades que a Bahia precisava ver aproveitadas e não tem tido dimensão do cargo de governador da Bahia; não tem erguido a Bahia à posição que ela merece a nível nacional. A Bahia não tem sequer dimensão política mais. Portanto eu e o prefeito ACM Neto, e nossos amigos, companheiros que nos acompanham, vamos tratar esse tema da vinda dele dentro de um conceito do que é melhor. E se ele quiser vir, não haverá nenhuma interdição para a filiação dele no PMDB.

A figura do prefeito ACM Neto é forte eleitoralmente e foi testada nas urnas como vencedora, diferente do que aconteceu com o restante do grupo político dele no plano Executivo em 2014. Existe algum tipo de receio da figura de ACM Neto engolir os aliados?

Não, em absoluto. Se formos fazer um cálculo matemático, o prefeito ACM Neto ganhou a eleição em Salvador com 700 mil votos. Eu fiz dois milhões de votos na Bahia. Portanto, sou uma figura testada. Ganhar ou perder eleição é do jogo. O prefeito ACM Neto perdeu uma eleição para prefeito e ganhou outra. Eu perdi uma eleição pra governador, pra senador, posso ganhar uma eleição. O ex-presidente Lula perdeu três eleições, terminou presidente da República. Fernando Henrique Cardoso perdeu uma eleição pra prefeito de São Paulo e venceu eleição pra presidente da República. Não tenho absolutamente esse tipo de receio. Se o prefeito ACM Neto vier para o PMDB, virá como alguém que tem liderança expressiva, um militante importante pra ajudar o crescimento do PMDB em termos de maturidade pra sentar na mesa e construir projetos que possam caminhar sem conflitos.

Como a gente está trabalhando no campo de algumas hipóteses, fala-se muito que, se o prefeito não se filiar ao PMDB em 2016 e é possível que a vice-prefeitura possa vir para o partido. Existe algum nome preferencial do PMDB?

Tive duas conversas com o prefeito ACM Neto. Todas as duas muito recentes, a gente prospectando essa avaliação sobre que partido seria melhor, se eventualmente ele tivesse essa mudança. O que eu disse a ele foi o que estou te colocando de forma clara: não há interdição para sua vinda; se você vier, você é o nosso candidato a prefeito em 2016, contando com meu entusiasmo, meu apoio e meu engajamento total e absoluto. E não tratamos de hipóteses outras, de vice-prefeitura e tudo mais, não porque seja cedo, mas te dou um dado, até porque há ainda uma reforma política tramitando no Congresso e nós não sabemos o que vai ser. Vai ter fim da reeleição confirmado? O mandato é de quanto tempo? É uma série de questões que seriam fundamentais para se ter essa conversa. Como não temos ainda, não precisa se antecipar agonias.

Durante muito tempo Geddel teve cargos ou de deputado ou de indicação. Além de presidente do PMDB hoje, o que Geddel faz?

Eu sou militante da política, sou presidente do PMDB e cuido da minha atividade empresarial privada. Eu exerço papel nas propriedades que eram do meu pai, nas minhas propriedades, nos meus esforços, nas minhas posições – o que Lúcio [Vieira Lima, seu irmão e deputado federal] fazia. As pessoas fazem da política um emprego. Eu não faço da política um emprego. A política é pra mim um exercício da vocação. Eu ouso, não fico meditando “vou disputar uma eleição e, ai, se eu perder?”. Se eu perder, vou arregaçar as mangas e vou viver. O que não vou deixar é de sonhar, de fazer o que eu quero, o que eu penso e acredito. Disputar e perder eleições é próprio da democracia. Quem não pensa dessa forma é porque não é democrata. Tenho muita tranquilidade e muito orgulho da minha trajetória política. Fora dela, trabalho como todo trabalhador, procuro ganhar meu dinheiro, procuro investir, procuro atuar também bem como empresário.

O senhor é amigo pessoal de Marcelo Odebrecht, preso nesta sexta-feira (19). Como o senhor encara essa prisão?

Tenho uma relação até mais próxima do Emílio do que do Marcelo, mas tenho uma profunda admiração por ele, um empresário da nova geração, e acho que é algo perturbador isso que está acontecendo no país. A Odebrecht é uma multinacional brasileira da qual nós temos que ter muito orgulho. Evidente que se alguém cometeu algum ilícito, há de ser penalizado. Só espero que os investigadores tragam logo a público que problemas efetivamente existem e não prendam pessoas pra ficar lá. Me preocupa menos a figura do Marcelo nesse momento; me preocupa muito as Organizações Odebrecht, uma grande empresa baiana, orgulho da Bahia e cuja fragilidade pode trazer graves consequências para a economia nacional, arrastando bancos, gerando demissões. Lamento e fico muito triste não só pela amizade que tenho com Emílio Odebrecht, pelo respeito que nutria pelo dr. Norberto Odebrecht, pela admiração que tenho pelo Marcelo, mas como baiano e brasileiro, por ver uma empresa desse porte terminar envolvida nesse processo lamentável que tem como grande mentor e responsável o PT e seus métodos.

A Operação Lava Jato estremece a estrutura da República?

É lamentável, evidentemente que é necessário. Você não pode, em nome de manter a República sem nenhum balanço, acobertar irregularidades, a corrupção. O que se espera é que isso seja feito com rapidez e responsabilidade. Quem tiver responsabilidade e culpa que vá para a cadeia e quem não tiver, que seja logo absolvido para voltar a produzir em um país que precisa tanto de produção, de emprego e de esperança para o futuro.

Bahia Notícias

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