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Dr. Martins Nery fala sobre a história e dá adeus a professora e advogada Lusia Brito

Adeus Lusia

Lusia Soares de Brito – com “S” como gostava de sublinhar -, partiu em última despedida no dia 31 de maio de 2020.

Nos idos dos anos 60, mais precisamente no final daquela década, conhecemos a professora Lusia, digo nós, toda uma geração que hoje carrega nos ombros de 70 anos para trás, conheceu ou ouviu falar da jovem professora, recém formada e chegada do renomado Colégio-Internato Taylor-Egídio, liderado à época pelo casal Estela e Carlos Dubois, localizado na bonita  Cidade de Jaguaquara.

No particular estudava o quarto ano primário no Colégio Ruy Barbosa, eu e vários colegas, meninos e meninas em plena adolescência – nessa época para se ingressar no ginásio (hoje oitava série) se fazia um exame de admissão -, na verdade um vestibular.

Nesse contexto, a professora Lusia, aplicava e corrigia a prova de português “o terror de todos nós”, de quebra ela anunciava o dia do resultado, ninguém dormia direito até o dia tão esperado, as famílias mobilizadas, os alunos à flor da pele, era festa de quem lograva êxito e choro dos reprovados, com o manjado consolo, a professora lusia garantiu que no próximo ano se você estudar passa…,

E foi assim, que no ginásio, todo mundo já metido à besta, teve contato com inovações pedagógicas trazidas por àquela jovem, pela primeira vez, tivemos contato com o teatro, a música, o debate social, tudo isso nas reuniões culturais criadas por ela, aos sábados, com forte participação das famílias, era um mundo novo que se abria…,

Continuando sua luta como educadora, lusia foi morar em Salvador-Capital, porém sem nunca se desligar de Mutuípe seu torrão natal.

Após cumprir essa etapa, formou-se em direito e passou a exercer a advocacia com o mesmo entusiasmo, sempre comedida no tamanho, mas gigante na humildade, coragem, honestidade e caráter.

A Lusia advogada sempre trabalhou com esmero e dedicação ao labor jurídico, sob o manto do império do ordenamento jurídico, jamais tergiversou com o direito de seu cliente e sua consciência. 

Na filosofia jurídica, diz-se que uns dos pilares da justiça é “dá cada um o que é seu ”ou que “ direito é direito” não importa o tamanho.

E assim, seguia a Dra. Lusia no seu dia-a dia, professando sua advocacia e falava aos colegas: “Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem.” (Padre Antônio Vieira).

Certa feita, no Fórum de Mutuípe, mesa de audiência, uma jovem e aguerrida advogada de outra cidade, representava a parte contrária de Dra. Lusia e propôs um acordo nos seguintes termos: “vamos acabar logo com isso, não vamos ficar aqui brigando por tão pouco”. E lusia fazendo jus aos seus princípios respondeu: quem tem muito briga por muito; quem tem pouco briga por pouco. Lusia ganhou a causa e a jovem advogada ganhou um ensinamento para toda sua vida, assim era a advogada Lusia Brito….,

A lusia social, antes de tudo sempre foi uma militante social participando de tudo, nas cavalgadas lá estava ela toda enfeitada de rosa montada no seu cavalo também todo enfeitado, desfilando pela cidade e zona rural; as crianças a chamava de “tia”, sempre brincando e fazendo um mimo “um chocolate a um; uma balinha a outro, era assim…,

Viagens, excursões, ela era presença garantida. Nos festejos juninos, sempre alegre e participativa. Devota de Santa Lusia, santa que vela pelos olhos de todos, no seu aniversário comemorava na comunidade, com café da manhã reforçado e a noite ainda tinha “o que sobrou”, e sabe o que ganhava de presente: bonequinhas; casinhas; chaveirinhos, roupas de bonecas, ela ria, porque o maior presente era a presença dos amigos e amigas, saudades…,

A lusia militante, há mais de 30 anos militando na política de Mutuípe, nos últimos 19 participando diretamente da administração pública no seu ofício de advogada, alguns percalços políticos,  natural, mas em todos esses anos ninguém jamais dizer de qualquer deslize ético ou ter praticado e/ou participado de qualquer ato ílicito, atuando sempre com lisura e honestidade, em vida não acumulou bens – não que seja crime acumular bens num sistema capitalista, desde que haja licitude na sua origem e acúmulo-,

Lusia nos deixou sem ter se preocupado com qualquer patrimônio, morava de aluguel e tinha carro popular…,

Seu maior patrimônio ela deixou para todos nós, o legado de seu caráter, humildade, honestidade, alegria e garra no que fazia, você faz muita falta…,

Lusia amorosa por Mutuípe, nunca quis holofote por amar Mutuípe, sempre esteve com o município no coração, mesmo em momentos difíceis arranjava um jeito de estar por perto, nunca desanimou, mulher guerreira….

Numa exitosa experiência de educação alternativa, criamos a Escola Técnica Vale do Jiquiriçá, funcionando no início no antigo Colégio Polivalente e depois antigo Henrique Brito, exitosa porque toda uma geração teve uma formação cidadã e até hoje rememora a experiência, mas quem estava lá contribuindo de forma extraordinária, Lusia Brito, quanta falta faz…,

Falar de todas as Lusias existentes na Lusia Soares de Brito, daria para escrever um livro, hoje todas as gerações que tiveram contato com qualquer uma delas, certamente não ficou indiferente ao passamento.

Eu tive o privilégio de ser amigo, parceiro e colega de todas elas, até de brigar com algumas, viva Lusia Brito! que Deus acolha sua alma!  E como diz minha neta de 07 anos, agora você virou uma estrelinha no céu…,

E com essa singela homenagem, deixo transcritos esses pensamentos, ambos do Padre Viera, que na minha leitura expressa muitodas lusias…,

“O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.”

“Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos quando fazemos. Nos dias que não fazemos, apenas duramos.”

01/06/2020

Martins Nery

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