Gripe ainda é maior preocupação de especialistas sobre risco de surto global mortífero


Há cem anos, a Primeira Guerra Mundial devastava o planeta, mas um desastre muito pior estava prestes a começar. No dia 11 de março de 1918, nos Estados Unidos, era registrado o primeiro caso do que viria a ser a pandemia mais mortífera da história. Enquanto a guerra matou 20 milhões de pessoas em quatro anos, o vírus do que ficou conhecido como gripe espanhola mataria de 50 milhões a 100 milhões em apenas alguns meses, infectando um terço da população mundial. Um século depois, se a humanidade corre algum risco de enfrentar uma nova pandemia como aquela, vírus como o da influenza continuam sendo o principal candidato. É o que apontam especialistas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo. “Os vírus respiratórios são nossa maior preocupação em relação ao aparecimento de uma nova pandemia. Hoje, temos muito mais recursos na medicina para lidar com uma situação dessas do que em 1918.

Mas temos uma população muito maior, o mundo está muito mais conectado, viajamos mais e mais rápido e temos megacidades, onde um vírus desse tipo se transmite em velocidade alucinante”, afirma Sylvie Briand, diretora do Departamento de Ameaças Infecciosas da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ela lembra que o causador da gripe espanhola foi o vírus da influenza A, ou H1N1, o mesmo que causou a pandemia de “gripe suína” de 2009, que matou mais de 18 mil pessoas. Na época, Sylvie era diretora do Programa Global de Influenza da OMS.

Para ela, porém, a mortalidade sem precedentes da gripe espanhola dificilmente se repetirá, já que o contexto de 1918, com uma guerra mundial em curso, teve um papel crucial na gravidade da pandemia. Incessantes movimentações dos exércitos e as péssimas condições de higiene, nutrição e saúde – tanto nas trincheiras quanto nas cidades – aumentaram a abrangência do vírus. “Além disso, não havia a capacidade de diagnósticos que temos hoje, não havia antibióticos e antivirais. Hoje, em tese, temos armas para evitar uma situação como aquela. O que não sabemos é até que ponto essas armas serão suficientes para proteger a todos, já que a população mundial cresceu muito em um século”, diz.

A pandemia de 2009 mostrou à OMS que as ações contra uma pandemia atualmente precisam ser extremamente coordenadas, envolvendo todos os países. “Estamos todos ligados. Se um vírus novo aparecer em um determinado país, ele chegará a todos os continentes em menos de nove semanas.” Durante o surto de 2009, uma vacina chegou a ser produzida quando o vírus foi identificado, mas levou alguns meses para começar a ser distribuída. Depois disso, a OMS criou um plano de ação global para vacinas de influenza, que estabelece procedimentos para que os produtores de vacina respondem mais rapidamente a um risco de pandemia. “Aprendemos muito, mas não sabemos até que ponto conseguiremos reagir de forma rápida o suficiente quando surgir uma nova pandemia”, disse Sylvie.

por Fábio de Castro, com colaboração de Giovana Girardi | Estadão Conteúdo